Do calendário romano aos nossos dias
A história do mês de dezembro
Dezembro nasceu como o último mês de um calendário de dez, foi o palco da maior festa popular de Roma — a Saturnália — e só depois virou o mês do Natal. Cada camada dessa história deixou marcas no calendário atual.
O mês que fechava o ano romano
No calendário romano arcaico havia dez meses, de março a dezembro, e um vazio de cerca de dois meses no coração do inverno, período sem trabalho agrícola e sem campanha militar. A tradição romana atribui a Numa Pompílio a criação de Ianuarius e Februarius para preencher esse vão, elevando o ano a doze meses. Com a reforma de Júlio César, no século I a.C., o ano civil passou a começar firmemente em 1º de janeiro e dezembro consolidou-se como décimo segundo mês, com 31 dias — mas manteve o nome numérico antigo, como explica a origem do nome dezembro.
Saturnália: 17 a 23 de dezembro
A Saturnália honrava Saturno, deus ligado à semeadura e a uma imaginada idade de ouro de abundância. Começava em 17 de dezembro com sacrifício público e banquete no templo do Fórum e estendia-se, no uso popular, até o dia 23. Sua duração oficial variou: foi encurtada e ampliada por diferentes imperadores, sem que o costume acompanhasse as ordens.
O que se sabe da festa vem de autores romanos e desenha um quadro reconhecível:
- Suspensão da vida pública. Tribunais fechados, escolas em recesso, negócios parados, guerra interrompida.
- Presentes. Trocavam-se lembranças modestas, sobretudo velas de cera e pequenas figuras de barro, as sigillaria, vendidas em feira própria nos últimos dias da festa.
- Inversão de papéis. Escravizados eram dispensados do serviço, comiam à mesa e tinham licença para falar com franqueza inusitada aos senhores. Era uma suspensão temporária e ritual da hierarquia, não uma alforria.
- Um rei de brincadeira. Sorteava-se em cada casa um "príncipe da Saturnália", encarregado de dar ordens absurdas durante a festa.
- Roupa e saudação próprias. Deixava-se a toga de lado, usava-se o barrete dos libertos e cumprimentava-se com a expressão ritual da festa.
A Saturnália era seguida, no calendário romano, por outras celebrações de fim de ano, entre elas a festa dedicada a Sol Invicto, em 25 de dezembro, culto solar promovido oficialmente no século III.
O solstício e as festas de meio de inverno
Em todo o hemisfério norte o solstício de dezembro marca a noite mais longa e o ponto a partir do qual os dias voltam a crescer — motivo suficiente para festas de fogo, luz e fartura em culturas muito distintas. Entre os povos germânicos e escandinavos havia o Yule, celebração de meio de inverno cujos detalhes conhecemos sobretudo por fontes medievais bem posteriores aos fatos, o que recomenda cautela com reconstruções muito específicas. No hemisfério sul, o mesmo instante astronômico traz o efeito oposto: é o início do verão.
Como o Natal chegou ao dia 25
O registro seguro mais antigo de 25 de dezembro como data do nascimento de Jesus aparece em um almanaque romano compilado em 354, que se refere a uma comemoração já existente algumas décadas antes. Como a data foi escolhida é assunto sem consenso. Duas explicações disputam a preferência dos historiadores: a de que a festa cristã se posicionou sobre a celebração solar romana da mesma data, absorvendo seu público; e a de que resultou de um cálculo teológico que ligava a concepção de Cristo a 25 de março, somando nove meses. As duas contam com defensores e com evidência parcial, e o assunto continua aberto. O desenvolvimento posterior está em história do Natal.
No Brasil de hoje, dezembro guarda um único feriado nacional, o Natal, em 25 de dezembro; o restante do mês é feito de datas comemorativas, festas locais e do encerramento do ano civil.
O que era a Saturnália romana?
Era a festa dedicada a Saturno, celebrada em Roma entre 17 e 23 de dezembro. Tribunais e escolas fechavam, havia banquetes, troca de pequenos presentes e uma inversão temporária de papéis sociais, com escravizados dispensados do serviço e autorizados a falar com liberdade incomum.
Por que o Natal caiu em 25 de dezembro?
Não há consenso entre historiadores. Uma hipótese sustenta que a data cristã se sobrepôs à festa romana do Sol Invicto, celebrada em 25 de dezembro. Outra defende que ela resultou de um cálculo teológico que partia de 25 de março. O registro seguro mais antigo da data está em um almanaque romano de 354.
Quantos meses tinha o calendário romano antigo?
Dez. O ano começava em março e terminava em dezembro, e o inverno profundo ficava fora da contagem. Janeiro e fevereiro foram acrescentados depois, segundo a tradição romana, por Numa Pompílio.